24/07/2026 - Artesãs de Manacapuru durante feira realizada no município amazonense.
Jadson Lima/g1 AM
O artesanato passou a fazer parte da rotina de mulheres que encontraram na atividade uma oportunidade de gerar renda em Manacapuru, no interior do Amazonas. Pacientes em tratamento contra o câncer, mães solo, indígenas e vítimas de violência doméstica estão entre as artesãs que participaram, neste mês, de uma feira realizada no município.
O espaço também reuniu profissionais que seguiram outras carreiras, mas mantiveram no artesanato uma atividade paralela. Enquanto algumas mulheres começaram a produzir por necessidade, outras transformaram um talento cultivado ao longo da vida em dinheiro.
Entre elas está a artesã e orientadora social Aurinete Alves de Oliveira, que começou a produzir peças artesanais há 16 anos, durante o tratamento contra um câncer de mama. Enquanto participava de encontros com outras pacientes na Fundação Centro de Oncologia do Amazonas (FCecon), ela decidiu aprender a fazer fuxico, técnica produzida com retalhos de tecido, para deixar de falar sobre a doença.
???? Participe do canal do g1 AM no WhatsApp
“A gente decidiu que não queria mais falar de câncer. Fomos comprar material e começamos a fazer fuxico”, relembra.
Festival reúne artesanato, cultura e ações ambientais em Manaus
A atividade, que começou como uma forma de ocupar o tempo durante o tratamento, mudou sua trajetória. Atualmente, Aurinete ministra oficinas de artesanato para mulheres com ansiedade, depressão e pacientes oncológicas. Para ela, o trabalho manual também abriu caminho para que muitas participantes passassem a gerar renda.
“Se o Senhor me der uma segunda chance de vida, eu vou viver para fazer algo diferente. 16 anos depois, estou aqui ajudando outras mulheres”, afirma.
Outra participante da feira é a indígena Ivanete Laborda, de 33 anos, do povo Apurinã. Moradora da zona rural de Manacapuru, ela viajou de motocicleta ao município para levar à feira grafismos tradicionais produzidos com sumo de jenipapo, técnica utilizada pelo povo indígena e que também é aplicada em bolsas, camisetas e outras peças artesanais.
Ao g1, Ivanete contou que cada desenho representa parte da identidade do povo Apurinã e ajuda a manter viva a cultura indígena.
“O grafismo é uma cosmologia nossa. A gente mostra o que ele significa e o que representa na nossa luta do dia a dia”, contou.
Há dois anos, ela participa da Feira das Mulheres Empreendedoras, onde comercializa os produtos e amplia a divulgação do trabalho desenvolvido na comunidade onde mora.
Professora aposentada, Vera Lúcia da Silva, de 64 anos, atualmente é artesã e produz biojoias. Ela afirmou que a inspiração no artesanato começou em seu ambiente de trabalho. Ela ministrava disciplina de Artes em uma escola de Caapiranga quando passou a se interessar pelo artesanato.
Eu cheguei em Manacapuru ano retrasado e fui ao Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), onde me matriculei em um curso e comecei a participar do projeto. A partir daí eu passei a integrar a feira. O artesanato eu mesma comecei a fazer por iniciativa própria e o curso me ajudou", disse.
Projeto reúne mais de 80 artesãs
A artesã Rosângela Picanço, que coordena o projeto voltado às mulheres empreendedoras, também encontrou no artesanato uma forma de mudar de vida. Mãe solo, ela começou a produzir cosméticos artesanais após o divórcio. No ano passado Rosângela recebeu o diagnóstico de câncer e, mesmo durante o tratamento, continuou trabalhando e hoje ajuda na organização da feira.
Segundo Rosângela, a iniciativa reúne cerca de 80 artesãs, entre mães solo, pacientes oncológicas, mulheres indígenas e vítimas de violência doméstica. Muitas delas passaram a produzir peças artesanais depois de participarem de cursos de qualificação e encontraram na atividade uma oportunidade de obter renda.
“Algumas delas não sabiam fazer nada. Hoje aprenderam uma profissão e estão vendendo aqui”, diz.
Além da comercialização dos produtos, a feira funciona como vitrine para o trabalho das artesãs e integra um projeto de incentivo ao empreendedorismo feminino desenvolvido no município.
Na última semana, o evento fez parte da programação de aniversário de Manacapuru e reuniu trabalhos de crochê, costura criativa, biojoias, cosméticos artesanais, grafismos indígenas e outras técnicas produzidas pelas participantes. Ao todo, foram arrecadados R$ 46 mil.
Segundo a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Ariane Campello, o objetivo é ampliar as oportunidades para que as artesãs fortaleçam os próprios negócios.
“A feira é uma vitrine de vendas e de contatos. A gente busca criar oportunidades para que essas mulheres possam apresentar o trabalho delas e ampliar a geração de renda”, afirmou.
Professora aposentada, vera Lúcia da Silva atua em artesanato.
Jadson Lima/g1 AM
|